Núcleo de Espetacularidades
Corta Tencionada


  

O homem é corda estendida entre o animal e o super-homem; uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar;
                                                                                               (Assim Falava Zaratustra, Nietzsche)


 LIMITAÇÕES E MORTE DOS FORMATOS

   Precisam existir ilusões. Elas precisam ser derrubadas. A existência de limites implica que o que eles limitam transite através deles. Transbordamento. Através dessas aparências que nos restam da organização. Estamos ensaiando, o Núcleo de Espetacularidades, a pré-estréia da peça processual Las Morales… no Fringe curitibano. Existe alguma articulação misteriosa de contingências (as quais dou muita importância, as articuçações) que me faz… visualizar a nossa atividade cotidiana… encontros, ensaios, fofocas, desbundes e derrocadas… como resistência, ou melhor, ressonância, ou melhor, melhor ainda, reação. É assim que tenho visto, ou melhor, melhor ainda, mais que melhor, melhor assumirmos o poder sensualizante implícito nas nossas atitudes de nos encontrarmos. O poder.
   O poder de um acontecimento, em instauração silenciosa, inevitavelmente errante, funambulesco. Existe, e precisa existir, a ilusão de que estão nos assistindo, e de que fazemos para alguém. É nisso que consistem os ensaios, e é isso o que eles deixam de ser, felizmente, em muitas situações. Nos nossos encontros vamos tramando, tramando, tramando, até que um dia ficam vendo tudo o que tramamos, dando certo e dando errado. O dia da apresentação é plena e decididamente diferente de cada dia de ensaio, que é diferente entre si. O que fazemos? Mostramos que estamos de mãos atadas, ou desatamos as atas das nossas reuniões, ou mentimos? Mentimos sempre. Por que?
   A frontalidade, disposição espacial recorrente em todos os nossos trabalhos, é um limite que não superamos. Não abolimos a frontalidade, porque achamos que precisamos dela. Ao termos esta impressão, escolhemos. A frontalidade. Dizemos que escolhemos. Eis aí um limite através do qual o acontecimento/encontro propõe (estabelecendo ou não) movimentação de informação, produção de conhecimento, posicionamentos políticos. Eis aí um exemplo de um limite por onde se dão alguns desses exemplos de fluxo, de comunicação, ou vivência de linguagem. Não sei se é o melhor nem se vem ao caso sabê-lo. Como estou me referindo agora a uma noção muito específica de experiência de encontro, que é a maneira como estou interpretando a experiência teatral, tenho a impressão de que o melhor possa passar pela hipótese da invenção. Não a invenção originalesca, que derruba limites inexistentes (isto é, a transgressão via formulários), mas a invenção dos limites e dos formatos por onde transborda a subjetividade. Ou então posso dizer que prefiro a frontalidade para que eu possa assistir de lado.



    OS CORPOS EM FRONTALIDADE

   Palco e platéia. Pessoas se olhando. Luz e Penumbra ou Escuridão. Não gosto de assitir peças, não necessariamente por rejeição. Mas porque me incomodam os grupos grandes. Mesmo as platéias “fracas”, isto é, as cadeiras vazias. Os grupos grandes me provocam ameaça e preocupação. Quando estou na platéia fico nervoso, tenso mesmo. Fico querendo assitir à platéia quando sou platéia. E aos atores quando não sou platéia. Ou seja, sempre sou platéia. Se eu sou platéia sempre, por que eu tenho que tomar decisões à respeito da apresentação, além do motivo óbvio de eu ser o diretor? Não sei, e acho que quando eu souber terei encerrado minha trajetória de diretor.
   Por isso também sou autor. E quando penso nos corpos dos atores em relação frontal com a platéia, acho que produzo um pensmento de autor. Não o dramaturgo, e também não o diretor de cena. O que diferencia? As diferenças diferenciam, não é óbvio? Ai, como me divirto. Queria agradecer aos componentes caóticos que nos colocam em relação e em perigo à cada ensaio. Afinal, a frontalidade não se trata da invenção, enquanto a invenção não tratar da frontalidade. Tratar é conversar, manusear, cuidar (bem ou mal), expressar, interpretar, realizar ou modificar por meio de um agente. Mas, não é disso que eu estou falando. Do que é?
   Os corpos são postos em relação frontal. A platéia é posta em relação frontal. O espaço escolhido é caracterizado pela relação frontal. À partir daí, duas perguntas. Por que as pessoas param para ver as outras? Também não se responde, mas acredito que seja uma condição da experiência de afetação. A invenção não se trata da frontalidade enquanto a invenção não se tratar da ilusão. Perto do encantamento, o hipnólogo e o hipnotizador colocam-se também em condição espetacular. A ilusão de inventar a roda, combatida pelos professores, devia continuar sendo posta em discussão. Ou melhor, ela sempre é a discussão, ao menos para mim. Afinal, enchemos de adereços sensoriais combinados previamente, a necessidade de se encantar pela presença do outro. E também enchemos de adereços dramatúgicos, de complexidade atordoante, ou de simplicidade perturbadora, ou de redundância hipnótica, a mais cruel manifestação de afeto que se dá no pacto do espetáculo. Somos extremamente perigosos e poderosos fazendo isso. E, ao mesmo tempo, somos marginais, ainda.



    A MUSA

   A musa é o arquétipo por onde passam os afetos mais significativos na minha, digamos, condição mais recente. Mas, a minha condição mais recente, digamos, a primeira dobra que emergiu nesta nova etapa da minha vida, é uma maneira com a qual tenho pensado a minha vida, ou melhor ainda, a vida sendo pensada numa abordagem pessoal de tempo onde o reconhecimento ainda está sendo produzido. Quer dizer, a Musa não é alguém por quem estou apaixonado, mas é uma paixão que se repete e se recusa a coadunar com a realidade. Afinal, as musas só inspiraram as disposições criativas, que não são necessariamente escolhas do indivíduo, mas configurações de manifestação afetiva onde a criatividade foi notada. A musa, tornar alguém musa, tornar algo como objeto de inspiração, é quase tão parecido com o que o museu faz com as pinturas, esculturas, e as galerias com instalações, performances, e as catedrais com padres, freiras, fiéis. Coletivo de musa é museu.
   Claro que a Musa Inspiradora não tem mais o espaço e o tempo específico que pareceriam ter. Pensando que produção de inspiração seja produção de espaço e tempo. Uma situação de inventividade, um acontecimento. Desmoronando pelos limites de si mesmo. A musa é uma afetação da faceta anímica da autoria. A musa é ao mesmo tempo a mãe e a morte do amor impossível. A musa foi atingida por um lustre na cabeça (sabotagem de primeira executada pelo apaixonado/patético/patológico “fantasma da ópera” que é um assunto à parte, fundamental, ainda não citado). Claro, esta é a nossa abordagem deste arquétipo. Do Núcleo de Espetacularidades. Em Las Morales Dobles de Wilson.
Núcleo de Espetacularidades

Foi fundado em 2006, estabelecendo parceria com diversos estudantes e profissionais das artes cênicas em Curitiba (Clarissa Oliveira, Ricardo Nolasco, Walace Brassero, Ana Paula Frazão, Semy Monastier, Vanessa Benke, Bruna Marros, Guilherme Marks, etc). As dramaturgias propostas por Límerson desde o primeiro trabalho são indissociáveis da noção de encontro, entre a sua origem (Bauru, SP) e suas infiltrações-abstrações-apropriações em Curitiba.

www.limerson.com

Las Morales

Partindo da exploração proposta individualmente à cada ator, através de uma dramaturgia combinada com procedimentos de ensaios na sua elaboração, da tríade básica das artes cênicas levantada por Jacó Guinsburg (ator-texto-público), a proposta inicial da peça desdobrou-se numa retomada das pulsões sentenciais mais pungentes no mecanismo criativo do Núcleo de Espetacularidades. Novamente questionado como algo existente, passando pela necessidade de ser necessário. O texto é escrito para os atores em específico, culminando em associações pontuais entre tempo real e tempo da história, além de reafirmar, agora de forma quase contraditória, as motivações narconarcisistas que iludem um artista. Se existe uma história da crise criativa ou de inspiração ela agora encontra-se noutra etapa. Sob o foco desiludido do poder irrevogável. Nos braços graves de uma estirpe, e na sua não aceitação.  
Las Morales Dobles De Wilson marca a retomada do Núcleo de Espetacularidades ao procedimento cênico frontal. Após atos performáticos em espaços abertos, o grupo volta aos palcos de Curitiba trazendo outros bons e maus resultados das suas primeiras pesquisas, novamente questionadas como algo existente, passando pela necessidade de serem necessárias. “São questionadas por mim enquanto as dirijo, dou indicações do canto da minha posição microfonada. É cruel que sejam situações-objeto de inspiração. É cruel limitar-me à centelha. São pessoas que me escutam a quem escuto, a quem eu desconheço além da produção de cognição intensa, pois é uma vivência do amor ao não amor”.  
Teste de seleção para musa inspiradora. Cena do teste. Formas narcísicas dilacerando as peles umas das outras sem haver indício ou evidência de superação demonstrado como um ou outro. O duplo de Wilson é o personagem outrora representado. Mas a própria crise de inspiração está falecida nos braços da estirpe vertente de uma representação exposta à sombra.